A primeira vez que entrevistei Jackson Antunes foi em 1993, na Fazenda Primavera, nos intervalos de gravação da novela Renascer, de Benedito Ruy Barbosa. Ele interpretava o Damião Cunha apaixonado por Ritinha (Isabel Fillardis). A fala mansa e educada me chamou a atenção e lhe disse: “Você vai longe”. E foi! Toda vez que eu o encontro ele diz que foi a sua primeira entrevista. Nos tornamos amigos. Depois vieram outras entrevistas, como em Memorial de Maria Moura, O Rei do Gado, Irmãos Coragem e A Favorita.
Simples, excelente ator e perfeito para os personagens que interpreta, Jackson é o tipo de pessoa que qualquer pessoa gostaria de ser amigo. Nascido em Janaúba, interior de Minas Gerais, começou a carreira aos 10 anos, num circo. Confira o bate-papo que mais uma vez eu tive com esse grande ator.
Seu nome é Joaquim Antunes. De onde surgiu o Jackson?
Surgiu no circo. Na verdade, eu comecei no circo com 10 anos de idade. Naquele tempo as duplas caipiras se apresentavam em circos que viajavam pelo interior do Brasil e um dia uma dupla apresentou uma peça chamada ‘Jackson, o Matador’. Ai, eu achei tão bonito aquele nome que resolvi mudar.
Você sempre está trabalhando em novelas clássicas. Começou em Renascer e depois vieram Irmãos Coragem, o Rei do Gado, Anjo Mau, A Favorita e outras tão importantes quanto. Como isso funciona pra você? Você não parou um ano sequer para descansar.
Eu gosto do trabalho que faço. Tenho muito amor e dedicação e estou em plena entrega para a profissão. Procuro sempre estar com o texto decorado, ser amigo dos meus colegas de trabalho. Nunca parei porque as oportunidades apareciam e não podia perder. Sou um ator muito esforçado.
Mas teve um tempo que você deu uma parada. O que aconteceu?
Tive uma trombose na perna e fiquei quietinho me recuperando, mas não parei de estudar. Procurei ler muito e estudar personagens, e claro, treinava o lado psicológico e emocional. Aproveitei para cuidar da alma para me tornar sempre uma pessoa melhor. Tenho um ditado: “administrar os outros é muito fácil, o difícil é administrar a gente”.
De todas as novelas qual a que você mais gostou? E por que?
Nossa, eu gostei de todas! O Rei do Gado, minha primeira novela, foi muito importante porque levantava a questão da reforma agrária. E foi excelente abordar essas questões sociais para serem discutidas num horário nobre. Em A Favorita’ tratou sobre a violência doméstica, onde meu personagem Léo batia na sua mulher Catarina (Lília Cabral). O resultado ajudou a cair em 25% essa violência. Fico feliz quando um trabalho desperta uma mudança na sociedade. Eu sempre procuro entender os dois lados do personagem: a luz e a sombra. E tento humanizá-los. Não só na minha vida profissional como também no dia a dia. A gente não pode julgar o outro sem antes procurar dar um mergulho profundo na alma desse ser.
Está sendo reprisada a novela Império, e seu personagem Manoel tem um bar simples, onde o Imperador adora comer os seus quitutes. Na sua vida você cozinha?
Eu cozinho as coisas simples que aprendi lá na roça como feijão tropeiro, mas não sou igual ao seu Manoel. Ele é mais descolado que eu.
Você veio de Janaúba, Minas Gerais, para conquistar o Brasil. Conseguiu o que queria?
Nunca tive grandes ambições na vida. Se eu tivesse ainda em Janaúba fazendo meu teatrinho e escrevendo as minhas peças, estaria também muito feliz. Mas as coisas foram acontecendo e conquistei o meu espaço dentro da normalidade. Nunca me deslumbrei. Não tenho carro importado. Gosto de carro normal com marcha de passar com a mão e nem Bluetooth no celular. Gosto das coisas mais simples. Não vou pra festas. Uma vez convidaram para uma festa de novela e me botaram um black-tie que eu fiquei parecendo um sapo.
Eu soube que você mora numa chácara, com direito a ter tudo o que possa lhe proporcionar. Isso é muito importante para você?
Sim! Gosto de estar perto das minhas raízes interioranas. Terra de chão batido, sentir o cheiro da chuva caindo, da plantação de milho, abóbora, mandioca. Coisas simples da vida.
Parece que o seu filho está seguindo a carreira do pai, um artista. Foi influência ou está no sangue dele.
Tenho certeza que está no sangue dele. Tenho muito orgulho do ZéVitor, porque o que ele faz é um trabalho honesto. É um menino bom que escreve coisas bonitas e profundas. Além de ser também muito doce, que gosta de me abraçar e de me beijar. Tenho um filho maravilhoso.
E a música ainda é forte para o Jackson? O que te inspira?
A música pra mim é um hobby. Nunca tirei o sustento da música, mas eu gosto de tocar uma viola caipira que aprendi com os amigos da roça. Cantorias que falam ao coração de gente simples, das plantações. Na roça a gente canta pra tudo. Canta pra pedir chuva, pra colher e pra agradecer. Não é um canto comercial, é mais emocional e eu abraço com muito carinho sem pretensão profissional.
O que está achando de interpretar o Duque de Caxias na novela Nos Tempos do Imperador? Como foi que ele chegou em suas mãos?
Foi um presente do diretor Vinicius Coimbra, que me convidou. Ele sempre me chama para papeis fortes como esse. Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias é o patrono do exército brasileiro, que tem poder, mas é amigo de Dom Pedro. Ele se preocupou com o Brasil. Estudei muito sobre ele. Tudo sobre a sua vida. Ele só virou Duque depois da Guerra do Prata contra a Confederação Argentina em 1851.
Foto: Estevan Avellar/TV Globo